4 meninos, 4 motos e pé na estrada

Tempo de leitura: 8 minutos

Dante Ramenzoni, Mário Foschi, Mário Zupo e Behring. (Esq./Dir.)

Nós esquematizamos essa viagem de moto para Buenos Aires, como dizem os meus companheiros de estrada, para resgatar o Manoel e o Vasques, dois motociclistas da nossa turma que, como já contei no post anterior, foram para Ushuaia, no Sul da Argentina, no dia 8 de janeiro.

11 dias depois, eu e mais três “meninos” partimos de São Paulo, com algumas paradas estratégicas pelo caminho, para encontrá-los em Buenos Aires.

Nesse post eu vou contar e mostrar algumas fotos do caminho de ida dessa viagem e os detalhes da volta serão tema de um próximo post, ok?

Então vamos ao proseado sobre essa aventura sobre duas rodas, que é algo que, de fato, eu aprecio muito vivenciar e agora, poder compartilhar com quem vem se interessando pelos meus escritos.

Pé na estrada

19 de janeiro. Sexta-feira ensolarada. Eu (79 anos) e meus amigos motociclistas Mário Foschi (68 anos), Mário Zupo (72 anos) e o caçula do grupo, Behring (51 anos) saímos de São Paulo e nos dirigimos à Palhoça, uma cidadezinha (praticamente um bairro!) que fica a cerca de 18 km de Florianópolis.

Foram 720 km de estrada, chegamos no final da tarde e no dia seguinte, quando estávamos a caminho de Camaquã, no Rio Grande do Sul e paramos para abastecer, o Behring e o Foschi queriam seguir viagem e passar pela Serra do Rio do Rastro. Por que, não?  Democracia é estado de direito em nosso grupo, só que como eu e o Zupo já conhecíamos, claro que optamos por um caminho mais curto.

Chegamos em Camaquã antes da outra dupla e quando eles nos encontraram no hotel, horas depois, nos contaram que andaram 450km a mais do que o previsto e o Foschi ainda levou uma picada de abelha perto do olho (justo ele que é alérgico!) e teve que tomar medicamento para ajudar na dor. Fazer o quê, né? Faz parte da bagagem de um motociclista experiente levar o kit farmácia de sobrevivência aos imprevistos.

Grupo reunido novamente, seguimos para Punta Del Este, onde atingimos a marca de quase 2000km sobre duas rodas.

E viva a liberdade

Viagens internacionais de motocicleta sempre são mais delongadas porque precisamos atravessar fronteiras, parar para comer, abastecer as motos. Aliás, esses abastecimentos sempre são programados previamente para acontecer nos horários de paradas para alimentação.

Em nossos trajetos pelas estradas nós seguimos em filas desencontradas, um do lado esquerdo da faixa e outro do lado direito, para ter visibilidade do grupo e mantendo uma distância de 30/40m entre as motos.

Quem vai na frente?

Fazemos um rodízio constante. Quando quem está na dianteira começa a acelerar com mais vontade (e eu adoro fazer isso!), essa pessoa troca de posição e vai para trás da fila e assim fazemos um revezamento estratégico para manter a viagem tranquila.

Nessa viagem, a nossa velocidade média foi mantida entre 100/110 km/h, com esticadinhas de vez em quando, mas nada que impedisse de apreciar a paisagem, uma das coisas mais gostosas nas viagens de motocicleta.

Aliás, por falar em visual da estrada, o trecho de São Paulo até Camuquã, que eu já fiz pelo menos umas cinco/seis vezes na vida, não tem muitos atrativos naturais porque é bem populoso e as estradas BR-116 e depois a BR-101 são bem movimentadas.

Mas quando começa o trecho de maior calmaria, ainda no Rio Grande do Sul até chegar na fronteira com o Uruguai, a coisa muda de figura. Tem um trecho muito grande, que a estrada fica no meio da Reserva Ambiental de Taim, uma região cheia de alagados (água dos dois lados), cuja paisagem é deslumbrante e em 2017 passou a ser considerada uma das principais áreas ambientais do mundo pela riqueza de fauna e flora.

O visual é incrível, muitas espécies animais entre mamíferos, répteis, aves e a velocidade média permitida é de 30-40km/h. Tem que andar devagar para poder curtir a riqueza do cenário natural.

Depois começam as usinas de energia eólica, campos gigantescos, vários quilômetros de hélices (que parecem ventiladores gigantes!) se movimentando na produção de energia elétrica.

Quando passa a fronteira brasileira e começa o solo uruguaio tem novas mudanças no cenário, variações de vegetação, de relevo e até as estradas foram projetadas de forma diferente das nossas; a que nos leva para Punta del Leste vira um aeroporto de apoio, em caso de eventos e emergências.

Um pouco sobre a rotina dos motociclistas

Normalmente a gente decide na hora, mas sempre baseados num planejamento feito antes da viagem, especialmente porque precisamos estar atentos à autonomia das motos, que são de modelos diferentes.

A gente sempre tenta fazer percursos entre 180 e 250km e então paramos para abastecer as motocicletas em postos previamente selecionados e que também ofereçam boa estrutura de alimentação, para um lanche ou uma refeição mais completa. (Banheiros em boas condições de limpeza também, que não é sempre que se encontra, são considerados nessa programação, em que o GPS tem papel fundamental para o sucesso da viagem!)

Pausa merecida

O percurso total diário gira em torno de 6 a 8 horas de estrada, mas nessa viagem teve um trecho de 10/11h, quando percorremos os 700km já mencionados no início desse post e, nesse caso, fizemos 4 paradas.

Muitas risadas, sempre

Eu também gosto de programar os hotéis, efetuar as reservas para não ter surpresas desagradáveis pelo caminho. Nossos amigos que foram para Ushuaia optaram pelo estilo “100% aventura” e contaram com alguma sorte no quesito hospedagem. Ainda bem que deu tudo quase certo (teve um dia que só conseguiram um hotel de beira de estrada, às 2 da manhã), pois caso contrário, teriam que dormir na estrada.

Em Punta Del Este

Passamos 3 dias em Punta, meio que fazendo hora, para poder dar tempo de encontrar os meninos que seguiriam de Ushuaia para Buenos Aires e foi reconfortante pois, além de descansarmos (foram 2000km de São Paulo até Punta!), fizemos passeios gostosos de moto, comemos uma carne de primeiríssima qualidade, pizzas suculentas, degustamos excelentes vinhos (nesse caso, optávamos ir e vir de táxi para manter a tranquilidade) e… lavamos as roupas.

Apesar de ser verão e estar calor (tive até que comprar uma capa mais leve), a água do mar estava muito fria, então ficamos observando só de longe.

Alegria de viver

Nessas paradas mais longas, eu sempre aproveito para fazer caminhadas, me exercitar e alongar para compensar os longos trechos que fico em cima da moto, sempre na mesma posição.

Em Punta, a geografia favorece que se ande a pé pois tudo fica perto, de fácil acesso e tem vários programas interessantes para se fazer, como dá pra ver pelas fotos.

Nem precisa de legenda
Fazendo pose em Punta para postar no blog
Destino final da ida: Buenos Aires

Saímos de Punta no dia 25 de janeiro, logo depois do café da manhã, atravessamos por Montevideo e pegamos o tráfego bem congestionado, mas levamos na boa.

Na alfândega de Colônia Del Sacramento

 

Para seguir viagem até Buenos Aires tínhamos dois caminhos e nós escolhemos o que passava por Colônia del Sacramento, um percurso de 300km.

No dia seguinte, pegamos a balsa e fizemos o trecho final que nos levou à Buenos Aires.

Chegamos na capital argentina e ficamos hospedados em Palermo, um bairro que muito me encanta, especialmente pelas boas opções de restaurante.

Confesso que dessa vez fiquei um pouco decepcionado com Buenos Aires, pois comparei com as outras passagens por lá. Achei tudo muito bagunçado, poucos turistas, moeda desvalorizada, engarrafamentos constantes e que confundiam e atormentavam os motoristas, especialmente em Puerto Madero, onde tem um grande volume de obras e isso faz com que, periodicamente, os trajetos sejam alterados deixando até o GPS confuso.

A saída foi deixar as motos descansando e fazer os percursos de táxi, o que no final acabou sendo muito divertido, pois os taxistas argentinos adoram uma boa prosa (sobre política e futebol, principalmente) e nós também!

Nossos amigos foram “resgatados” no dia 27 de janeiro e fizemos a maior farra na nossa única noite juntos em Buenos Aires com as histórias que eles contaram da viagem. Uma das melhores foi a que eles tiveram um acidente entre eles mesmos, um trombou no outro. No impacto da trombada, Manoel caiu da moto, machucou a mão e o Vasques atravessou a rodovia e quase que vira alvo de um caminhão, que passou alguns minutos depois. (Nesse encontro o grupo estava desfalcado, pois o Behringer e o Mário Foschi retornaram para São Paulo no dia 26 de janeiro.)

No fundo foi mesmo um resgate porque eles estavam muito cansados e nós programamos uma volta mais tranquila, apesar de alguns imprevistos como vocês poderão acompanhar no próximo post.

Até lá!

10 Comentários


  1. Caro amigo Dante é sempre um prazer viajar na sua companhia, aliás já foram muitas nestes longos anos de amizade.
    Continue escrevendo… vc tem jeito para isso!
    Rs
    Abraço
    Mario Zupo

    Responder

  2. Tenho vaga lembrança que em uma ida para Tiradentes este amigão Foschi também foi atingido no olho por algum inseto e ele tinha um kit de primeiro socorro, confere Mário ????

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  3. Adorei!!! Conforme estava lendo fui imaginando as passagens citadas onde por várias vezes me peguei com um riso nos lábios!!
    Saudades sempre!!!
    Continue escrevendo!
    Sucesso!
    Com carinho
    Mariana

    Responder

  4. Dante, adoramos seu relato da viagem e as fotos. Que legal deve ter sido! Abraços Beth e Paulo

    Responder

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