Mototerapia ajuda a acalmar a mente e alinhar as ideias

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Antes do ex-presidente Collor abrir as importações no Brasil, no início dos anos 90, as oportunidades de praticar “mototerapia” eram precárias, pois as máquinas disponíveis no mercado tinham um desempenho bem ruinzinho.

A abertura dos portos às motos mais possantes coincidiu com o momento em que estava recém-separado da minha primeira esposa e sem grandes programas para fazer aos finais de semana, já que os meus três filhos acompanhavam a mãe para a casa de praia no litoral paulista, então foi nesse cenário que comecei a me interessar para fazer passeios longos de finais de semana, sobre duas rodas, na companhia dos amigos que chegaram na minha vida nessa nova fase de vida.

Logo nas primeiras andanças, eu detectei uma coisa interessante: que quando a gente está em cima de uma moto, ela faz um barulho característico e cada uma, dependendo da marca, fazia ruídos diferentes, personalizados, que soavam como uma música aos ouvidos.  E, claro, como andávamos em grupo, tínhamos que ficar próximos uns dos outros, a velocidade era  tranquila.

A gente ficava ali, sem ter muito o que fazer, apenas pilotando a moto e eu comecei a fazer essa atividade com tanta naturalidade que começava a pensar nas minhas questões pessoais e profissionais. Refletia sobre as decisões tomadas na empresa e naquelas que ainda não havia encontrado solução, tentava também encontrar respostas sobre como iria fazer para arrumar uma nova companheira para refazer a minha vida.

(Eu já sabia que não iria conseguir muito tempo sem uma presença feminina ao meu lado, que fosse uma boa companheira, porque apesar de curtir ficar sozinho de vez em quando, não era homem de voltar para casa e não ter alguém de quem gostasse me esperando, nutrindo o mesmo sentimento de estar feliz por me ver.)

Comecei a perceber que esse tipo de relaxamento que me fazia meditar sobre a minha própria vida era algo que me interessava muito e através dele, eu fazia um encadeamento de ideias e resolvia muitas coisas.

E o bacana disso é que quando eu começava a pensar em uma coisa, eu não ficava preso só naquele tema, por exemplo, naquela época, que eu tinha meus cinquenta e poucos anos, eu pensava que gostaria de encontrar alguém para me casar novamente,  mas não ficava pensando apenas na pessoa que queria conquistar. Não! Não era só isso!

No meu caso, quando eu meditava sobre a nova esposa que chegaria na minha vida, eu me lembrava da minha mãe, como eu gostaria de encontrar alguém que tivesse um pouco de seu jeito carinhoso de me tratar, que fosse atenciosa comigo como ela era, de como seria gostoso ter alguém na garupa da moto, como seria inspirador ter alguém que fosse minha parceira em um novo negócio…, aí eu já mudava o cenário e pensava como eu podia melhorar a qualidade do produto que comercializava, logo vinha em mente que tinha que melhorar a qualidade da matéria-prima e assim por diante.

E a coisa ainda mais interessante é que quando nós parávamos para comer, batíamos papo, eu esquecia completamente do que havia meditado, mas bastava retornar para a estrada e voltava tudo, do ponto em que eu havia interrompido os pensamentos e foi assim que fui percebendo que a “mototerapia” era uma forma muito gostosa de concluir meus questionamentos, de dar forma aos meus pensamentos, de meditar com maior profundidade sobre a minha vida, meus propósitos, meus objetivos a serem conquistados e isso começou a virar um hábito frequente e agradável que me acompanha até hoje.

Devo confessar que antigamente eu tinha mais facilidade para resolver os meus problemas meditando sobre eles em cima de uma moto e possivelmente isto esteja acontecendo porque eu tenho menos problemas para resolver ou quem sabe, porque a capacidade de raciocinar em movimento esteja mais lenta com a chegada dos 80 anos, mas posso garantir que “mototerapia” é uma atividade que vai fazer muito bem (especialmente em uma estrada deserta!) para quem considerar que colocar o capacete e subir numa moto pode ser uma opção deliciosa para acalmar a mente e colocar as ideias no lugar certo, sem nem perceber que isto está acontecendo, na maior naturalidade possível.

(Enquanto organizava as ideias para escrever esse artigo, me veio à cabeça uma coisa: eu ando de moto desde os meus 7 anos e naquela época, andava alguns trechos na calçada,  então o meu pai sempre me recomendava que tivesse muito cuidado para não provocar nenhum tipo de incidente, tipo atropelar alguém que estivesse saindo de casa, pois perderia a moto. O que eu fazia? Enquanto andava de moto, ficava arquitetando como reagiria e o que falaria caso acontecesse alguma coisa! Acho que já fazia “mototerapia” desde os meus tempos de menino…)

Eu, Mário e Vasques seguindo para Punta Del’Este, no Uruguai.

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