Criar pontes para empreender por novos caminhos

Tempo de leitura: 5 minutos

 

Empreender é uma das palavras mais festejadas do momento, mas quem deseja seguir por esse caminho precisa ter em mente que empreender exige coragem, foco, dedicação extrema e exclusiva, capacidade de reinvenção e sacrifícios, especialmente no início dos empreendimentos ou nas mudanças de rota.

No final dos anos sessenta, os irmãos Ramenzoni Ziro e Ibsen, respectivamente meu pai e meu tio, decidiram que a Papirus precisava crescer, adquirir maquinários mais modernos, mais arrojados e que o primeiro passo para realizar essas mudanças seria encontrar uma localidade com água mais abundante para ser utilizada nos processos fabris e espaços físicos delineados de acordo com as novas necessidades.

Meu pai visitou a região de Limeira, encontrou o local que julgava melhor apropriado para atender os objetivos estratégicos de produção, traçou todo o projeto mentalmente, vislumbrou que o terreno visitado era ideal para abrigar uma fábrica que cresceria muito e, juntamente com o seu irmão Ibsen, começou a planejar como reuniria todos os recursos necessários para a nova empreitada.

Por se tratar de um empreendimento de grande porte, eles decidiram recorrer ao BNDE. Nunca haviam pedido empréstimo em banco algum e quando viram o documento que sacramentava a operação finalizado, com todos os pingos nos is, ficaram receosos com a dimensão da dívida e com o volume de bens empenhados como garantia.

Eu já trabalhava no grupo e logo tomei ciência de que empreender era um ato de Coragem, assim mesmo, com C maiúsculo, porque nunca podemos prever com todas as letras e números o que poderá acontecer mais à frente e se conseguiremos saldar a quantia captada naturalmente acrescida de juros.

As obras foram iniciadas, as etapas de pré-montagem e montagem da poderosa nova máquina também seguiram o planejamento com todos os sobressaltos possíveis e imagináveis e, em 1972, quando a Papirus inaugurou suas novas instalações em Limeira, eu assumi o comando de tudo e iniciamos um novo ciclo de modernização e reinvenção do negócio.

Para chegar na nova fábrica nós seguíamos pela Rodovia Anhanguera e logo depois da ponte sobre o Rio Piracicaba, entrávamos à direita para então pegarmos uma estradinha de terra com uma ponte de madeira que conduziria à entrada da Papirus. Esse trecho do caminho era ladeado de plantações.

Por essa estrada acontecia todo o tráfego de caminhões que se dirigiam à Papirus para fornecimento de matéria-prima ou para serem carregados com a nossa produção de papel cartão.

Logo nos primeiros tempos, nós percebemos que esse percurso dificultava o ir e vir de pessoas, cargas e então eu falei ao meu pai que precisaríamos encontrar uma solução, criar um “novo caminho”.

Como bom empreendedor visionário que era, seu Ziro me disse que já havia andado toda a área a pé e que como se tratava de um sítio que vivia de explorar a pequena produção agrícola, na qual o proprietário estava doente, a saída seria comprar esse sítio para criar um novo caminho para ser o portão de entrada e saída da Papirus.

Assim foi feito e depois fomos negociar com a prefeitura local para conseguirmos mudar a entrada da estrada, para ficar com melhor acessibilidade.

A prefeitura, à época administrada pelo Sebastião Fumagalli, nos ouviu atentamente, enxergou no nosso projeto uma possibilidade de tornar a região mais viável para outras indústrias, desapropriou um trecho do terreno e nós fizemos a doação do trecho de estrada que estava dentro do nosso sítio. Foi feita uma estrada, ainda de terra, coberta de cascalhos, pedra brita, mas bem mais segura e trafegável e esse processo todo durou cerca de 7 anos.

Mas, mesmo assim, nós tínhamos que ter cerca de 5 tratores para poder puxar os caminhões quando chovia muito. Depois inventamos um outro sistema que os caminhoneiros que vinham com a matéria-prima, depois retornavam carregados de papel e eles adoravam esse processo.

Só que a produção aumentava mais e mais, nós ganhamos um vizinho de peso com a chegada da Ajinomoto e a pressão aumentou junto à classe política para que a estrada fosse asfaltada. A solução foi fazer uma parceria com a prefeitura, que estava na gestão do Sr. Paixão, onde ela cederia o know how, os tratores e a mão de obra e nós (os empresários interessados) compraríamos toda a matéria-prima necessária para dar vida a “esse novo caminho”.

E assim sempre foi a minha vida desde criança, ser apresentado a ideias que precisavam sair do papel e ganhar vida; criar pontes para abrir novos caminhos, empreender, inovar, reinventar.

Meu pai, que aprendeu com o meu avô que fazia o mesmo com ele, sempre me envolvia em todos os projetos (muitas vezes me contando as histórias dos meus antepassados), pois assim ressaltava a importância de trabalhar, colocar novas ideias no papel, acreditar nessas ideias, buscar aliados, abrir novos caminhos honestos e transparentes para criar e/ou renovar as fontes de riqueza; e eu comecei a entender, ainda muito jovem, que toda essa cadeia  que ele fazia questão de me explicar, era a origem de tudo, inclusive dos meus brinquedos.

E foi assim que fui aprendendo que ser um empreendedor é como ser um atleta que precisa vencer novos desafios a todo momento. Foi assim também que caiu a minha ficha de que o esforço de empreender é sempre grande, mas quando conseguimos bater um recorde, o retorno é impagável!

 

 

2 Comentários


  1. Muito bom Sr. Dante, história de coragem e perseverança num país que muda tudo a cada dia. É um prazer compartilhar os desafios com o senhor.

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  2. As pessoas fazem a história que nos ensina, e delas enraizamos conceitos para levarmos e passarmos como foi passado a ele.
    Muito obrigado por nos dar esta oportunidade.
    Agora é conosco fazermos a nossa parte.
    Um grande abraço.

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