Bom senso é bom e eu gosto

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A filosofia nos ensina que bom senso é qualidade de nosso espírito que nos permite distinguir o verdadeiro do falso, o certo do errado. Para Aristóteles, o bom senso é “elemento central da conduta ética; uma capacidade virtuosa de achar o meio termo, distinguir a ação correta, que vai muito além da capacidade de distinguir o certo do errado. Já Descartes, denomina o bom senso de “luz natural” e chama-o simplesmente de razão, instrumento geral do conhecimento que é capaz de “julgar e distinguir bem o verdadeiro do falso”.

Como a faculdade da razão é natural e comum em todos os seres humanos, esse vai ser o meu ponto de partida para opinar sobre esse tema tão fundamental e tão difícil de dosar em nossa vida: o tal do bom senso.

Nos tempos de criança, o bom senso é pequeno, fazemos as coisas de forma a satisfazer as nossas vontades, nos divertimos a maior parte do tempo, atendendo a nossa concepção de mundo que ainda está em formação e quer que tudo termine em brincadeira. Nessa fase, os pais são fundamentais para o alinhamento dos primeiros aprendizados.

Quando entramos na puberdade/adolescência, aí começamos a ter mais problemas, porque crescemos, o corpo vai mudando, as emoções também e não sabemos bem o que vai acontecer na nossa vida, começamos a passar por várias transformações físicas, mentais e psicológicas, ganhamos mais força, precisamos começar a pensar antes de agir, tanto os meninos como as meninas. Nessa fase, os pais são fundamentais para passar segurança, dar a mão ao filho/a para atravessar a ponte para a vida adulta.

Seguindo esse meu raciocínio, o bom senso precisa ser introduzido na vida da criança, ter sequência na adolescência para florescer na fase adulta e isso, quero frisar bem, vai depender muito da educação e orientação dada pelos pais, principalmente no quesito de aprender a respeitar e ter paciência de ouvir o que as pessoas falam, antes de sair emitindo opiniões apressadas.

E os pais precisam ficar muito atentos aos exemplos que passam para os filhos, porque durante todo o ciclo de vida escolar, eles vão se influenciar pelas amizades feitas no colégio, que podem ser positivas ou negativas. Quando os pais são e dão exemplos bacanas de serem seguidos, as influências externas negativas perdem o poder.

Daí quando chegamos na fase adulta, vamos entendendo aos poucos que o bom senso significa viver sem atrapalhar a nós mesmos.

Melhor explicando, a gente vai percebendo que não pode atrapalhar o próximo, mas para conseguir não atrapalhar o próximo, precisa primeiro aprender a não atrapalhar a si mesmo. Precisa pensar que pode ir por um caminho ou por outro, mas o mais sensato é procurar escolher o que traga menos sofrimento ou o que se sinta mais confortável em trilhar.

Vou dar um exemplo: você tem que fazer uma prova de matemática, se você estudar pra chuchu vai conseguir nota máxima; se não estudar o suficiente vai tirar uma nota medíocre e com notas medíocres não se passa de ano.

Isso é bom senso. Gostando ou não, tem que estudar. Um pouco mais, um pouco menos, mas tem que aprender o suficiente para no mínimo tirar uma nota mediana. Então bom senso é como um remédio homeopático, pequenas doses, nas horas certas e repetidas vezes até alcançar a cura.

Conforme as coisas vão acontecendo na vida da gente, o bom senso vai se apurando, porque é um processo que se inicia desde os tempos de criança pirralha e vai ganhando forma junto com as nossas viradas de idade e vamos aprendendo a aplicá-lo nas ações cotidianas da nossa vida. Os pais são muito importantes para dar a linhagem de comportamento que os filhos vão adotar no decorrer da vida deles, mas existem várias outras pessoas que também cruzam o nosso caminho para ajudar nessa lapidação.

Eu, por exemplo, conheci pessoas incríveis que ilustram muito bem o que acabei de escrever acima. Uma delas foi o Carlos Rusca, um homem fora de série, que percebeu meu interesse pelos negócios da família desde as minhas primeiras visitas à fábrica de chapéus Ramenzoni, ainda bem menino, quando me levava para a sua sala e conversávamos sobre tudo, estudo, comportamento, curiosidades sobre a empresa, histórias da minha família. Foi um grande incentivador na minha decisão de cursar a universidade nos Estados Unidos, de me dedicar aos estudos com afinco e um excelente mentor nos primeiros anos de trabalho.

Mais à frente, quando meu pai virou pra mim e disse “agora você é o presidente da Papirus…”, eu fiquei tão entusiasmado que comecei a querer mudar muita coisa ao mesmo tempo; naquela época eu tinha um assistente, uma pessoa bem mais velha do que eu, que se chamava Gabriele Tacchini e que na hora certa e com as palavras certas, contemporizou: “Dante, você é muito jovem, calma, você não precisa implementar tudo isso em uma semana, você pode ir alinhando aos poucos, durante o ano.”

_ O que? Um ano? Não! É muito tempo!

_ Pode ser em um ano, um mês, o que não pode é querer resolver tudo ao mesmo tempo, em uma semana. O timing às vezes não é importante, o que de fato importa é a decisão. No momento que você tomar a decisão certa, aí sim, você vai poder mensurar quanto tempo vai precisar para realizar o que decidiu.

Eu não tinha esse timing quando era jovem, mas fui aprendendo e passei adiante o que aprendi. Aliás, aprendi com tamanha intensidade que até hoje, exercito o meu bom senso pensando, meditando muito sobre tudo. Eu gosto tanto de pensar, que muitas vezes as pessoas me perguntam: “Dante por que você está tão quieto?” E eu respondo “estou pensando!”

Outra pessoa que me ensinou muito sobre como usar o bom senso nas atitudes pessoais, profissionais e sociais (inclusive na escolha da vestimenta mais adequada para cada ocasião) foi o Mino Salvi, um banqueiro bem antenado com as tendências vigentes à época, grande amigo dos meus pais e que já nos deixou há alguns anos.

E não posso deixar de citar o Fabiano Pires, que me ensinou a refletir e avaliar sobre a amplitude de responsabilidades e conhecimento que uma pessoa precisa adquirir para presidir bem uma empresa. Sobre o bom senso para se dedicar a aprender tudo sobre aquela organização corporativa, independente da sua formação acadêmica, ou seja: parte financeira, administrativa, técnica, jurídica, comercial; pois somente dessa forma seria possível adquirir o embasamento necessário para me posicionar com firmeza diante de algumas decisões difíceis e inadiáveis que tivesse que tomar dali pra frente.

Com essas pessoas eu aprendi que a pessoa que pensa tem muita vantagem em relação à pessoa que não pensa.

Outro exemplo sobre bom senso? Quando eu era bem jovem eu gostava de jogar cartas, a minha mãe dizia para eu tomar cuidado porque jogo vira vício.

Eu a tranquilizava dizendo que não precisava se preocupar porque eu e meus amigos jogávamos de brincadeira.

Um dia, nós fomos em um cassino clandestino e eu tomei uma trombada boa e cheguei a conclusão que não era bom jogador, que era muito honesto para ser jogador… a partir desse dia que eu esvaziei meu bolso, nunca mais quis saber de jogo. Pensei, avaliei e mudei! Isso é bom senso.

Bom senso também depende muito do estado de espírito e do teor alcoólico no organismo. Uma dose a mais de bebida, por exemplo, pode fazer com a pessoa ganhe uma certa ousadia para tomar posições que no dia seguinte pode se arrepender, ou então, pode deixar a pessoa mais introspectiva, na dela, sem se manifestar nem pró nem contra, para evitar situações constrangedoras.

Uma metáfora que acho excelente para finalizar esse papo sobre bom senso é que ele vai crescendo junto com a gente e, tal e qual cada um de nós, vai se alicerçando na educação recebida, nos exemplos familiares, nos aprendizados adquiridos. Se vai se tornar bem ou malnutrido, isso vai depender muito da qualidade da alimentação, mas uma coisa é certa: o bom senso vai sempre dosar as nossas ações. Ele sempre vai nos sinalizar se devemos ou não persistir em algo (pode ser uma conversa, uma compra, uma disputa, uma nova aquisição de algum bem, um estudo mais aprofundado); há que se ter sensibilidade e percepção apurados.

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